quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

OS MICRONAUTAS DO BOM DOUTOR

Chega essa época, começa a pipocar as listinhas de melhores do ano. Já fui mais aplicado nesse quesito, de registrar em bloquinhos os meus destaques e até de fazer um esforço sincero em leituras de lançamentos. Eu era mais novo. Hoje, lamentavelmente, sou uma alma velha em um corpo decrépito. Como diria, o Sr. Vonnegut: “Coisas da vida.

Não, não vou desperdiçar o seu tempo tentando capitular o meu Best Of, mas se me permite uma única exceção, eu gostaria de redigir umas breves linhas sobre o meu livro favorito de 2024. Ou melhor, o meu livro favorito de 1987.

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Primeiro de tudo, todo leitor que se preze está sempre em busca de um projeto exótico para chamar de seu. Assistir à filmografia de Stanley Kubrick, ler na íntegra o Quarteto Fantástico de Stan Lee e Jack Kirby... Tenho um amigo que pretende zerar a bibliografia de Stephen King, provavelmente contando com a crença de que ele é imortal. Por outro lado, creio que se nós, reles mortais, pararmos tudo, nunca mais trabalharmos, nunca mais lermos um quadrinho e desistirmos da vida social, talvez, só talvez consigamos chegar ao fim dessa odisseia terrestre faltando ler uns 20 livros do King. Mas, se o meu amigo acredita que pode fazer isso, eu é que não vou colocar juízo na cabeça dele.

De qualquer forma, de meados de 2021 até agora, fim de 2024, também estou movimentando um projeto pessoal: ler todos os romances de Isaac Asimov ligados diretamente e incidentalmente à chamada História do Futuro. O que seria essa História do Futuro? Trata-se de uma expressão usada para denominar a conexão entre os romances da Fundação, a Série dos Robôs e a trilogia do Império (Correntes do Espaço, Poeira de Estrelas e Pedra no Céu). Somente aqui são quinze títulos. E então, avancei para outros que não fazem parte oficialmente dessa História do Futuro, mas, como Asimov não consegue se conter, ele sempre trabalha conceitos que, para quem está imerso nesse universo, com certeza serão percebidos como conexões. Isso inclui O Homem Bicentenário, Nêmesis e minha leitura mais recente, A Viagem Fantástica 2: Rumo ao Cérebro.

Antes que você pergunte, existe uma explicação rápida para o nome deste livro sugerir uma continuação. Isso ocorre porque, na verdade, o primeiro Viagem Fantástica (Fantastic Voyage) foi um filme de 1966, em que Asimov trabalhou adaptando o roteiro – que não foi escrito por ele – para um livro. Como a novelização chegou às livrarias antes do lançamento nos cinemas, muitos leitores acreditavam que o filme era uma adaptação de um romance do Asimov. E isso o deixava bastante irritado, pois ele acabou revelando mais tarde que não gostava do resultado, embora tenha se esforçado para dar verossimilhança científica ao enredo, o que era uma de suas assinaturas estilísticas[1].

Portanto, Asimov aceitou fazer esse trabalho encomendado, emprestando sua retórica científica, mas depois se ressentiu disso. Em 1987, ele lançou uma continuação que, na verdade, não era uma continuação. Trata-se de uma história original, aproveitando apenas a ideia da miniaturização e a viagem dentro do corpo humano em uma nave com propulsores de microfusão. Essa já é uma grande diferença, pois no filme o veículo era classificado como um submarino.

Realmente, não entendo por que esse livro precisava ser nomeado como se fosse uma sequência, a menos que fosse uma exigência editorial ou uma questão de copyright da Fox, produtora do filme de 1966. Enfim, ainda não falei da história de Asimov. Estamos no século XXI, provavelmente nos últimos anos desse século. Como o ano de publicação foi 1987, naquele mundo real de outrora, Asimov ainda não havia testemunhado a Queda do Muro de Berlim em 1989, tampouco a dissolução da União Soviética em 1991. Assim, em se enredo, a União Soviética ainda existia, embora a Guerra Fria, como a conhecemos, já tivesse ficado para trás. O que ocorria, de fato, era uma corrida pelo progresso tecnológico:

Nesse contexto, um neurofísico americano chamado Albert Morrison passa a ser sondado pelos soviéticos para ajudar a solucionar um problema enfrentado pelo projeto secreto de miniaturização. A descoberta da miniaturização ainda não havia sido publicizada por canais oficiais ou periódicos da comunidade científica internacional. Por outro lado, Morrison vivia no ostracismo, ridicularizado entre seus pares, pois acreditava que, durante seus estudos sobre o cérebro humano, utilizando um software criado por ele mesmo, havia sido capaz de sentir ou ouvir pensamentos de terceiros.

Diferentemente dos americanos, os soviéticos acreditam que as teorias de Morrison podem ser verdadeiras. O problema é que ele nunca conseguiu reproduzir seu experimento, isolando células nervosas, nem seus estudos publicados foram testados com êxito por seus pares. Assim, seria uma oportunidade perfeita para ganhar credibilidade, não fosse Morrison um completo covarde, fora que ele sequer acreditava que os soviéticos já haviam dominado a técnica de miniaturização. Correndo por fora, a Inteligência Americana, sabendo do interesse soviético, deseja que Morrison vá, sim, com eles e reporte tudo o que fez e viu. Porém, nem com o aval dos Estados Unidos ele se dispõe a ir.

Então, Morrison é sequestrado e levado à União Soviética para ajudar no projeto. O problema central está no alto dispêndio de energia na aplicação da miniaturização. Caso não resolvam isso logo, o Partido provavelmente precisará pesar os prós e os contras e fechar o projeto. O principal cientista soviético, Doutor Shapirov, havia encontrado uma solução, mas não chegou a registrá-la antes de entrar em coma. Assim, os cientistas soviéticos pretendem realizar uma viagem ao cérebro de Shapirov para que Morrison use seu software e consiga ler os pensamentos do cientista, recuperando o conhecimento perdido:

A narrativa envolve toda a preparação para a viagem, a apresentação da tripulação e os percalços da missão. A nave, precária e construída a toque de caixa, reflete as limitações soviéticas. Para piorar, já que estão lidando com um moribundo, o pequeno grupo tem um deadline apertadíssimo para cumprir esse objetivo. Aliás, além de Morrison, completa o time de “micronautas”: 1) Sophia, a bióloga que controla os campos eletromagnéticos da nave, para que a mesma fique invisível ao organismo de Shapirov, e não seja atacada por glóbulos brancos; 2) Yuri, o arrogante navegador que através de um mapeamento dos vasos capilares, usa a corrente sanguínea para direcionar a travessia até as células nervosas; 3) Arkady é o piloto, engenheiro – e pinguço! –, responsável pelo projeto da nave e, de certa forma, o alívio cômico por sempre compartilhar ensinamentos e ditados espirituosos do pai; 4) Boranova, a comandante da equipe, controla tanto os campos de miniaturização quanto os ânimos exaltados na minúscula cabine de pilotagem.

E, como é característico em Asimov, há o desenvolvimento de ideias científicas, com conexões que podem sugerir a origem da telepatia no universo da História do Futuro. Que é um dos grandes tropos dele. Se você leu a Segunda Fundação, com a trama do Mulo, seu cérebro chega a estralar quando começa a fazer as conexões; inclusive, porque a telepatia segundo Asimov não é um dom à moda Charles Xavier. No estado de coisas de Fundação, a habilidade parte do princípio comum do controle de emoções, com personagens empatas, capazes de fazer leituras sensoriais do que se passa na cabeça alheia. Em Viagem Fantástica, é possível visualizar os primórdios dessa habilidade, partindo de biotecnologia em humanos aprimorados com potencial para possibilitar as estranhas aplicações em robôs sencientes como R. Giskard Reventlov e R. Daneel Olivaw.  

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Mas Viagem Fantástica é um livro independente. Não é necessário saber de nada disso e, confie em mim, além do sci-fi hardcore, o texto ainda se arrisca como um thriller de espionagem. Se me dissessem que era o John Le Carré, de O Espião que Saiu do Frio, fazendo uma contribuição, eu cairia como um pato. Mas o que te faz fechar os olhos e voar longe é imaginar como deveria ser esse traslado impossível, em nível molecular:

Confesso que depois desse trecho, até toquei o play na intro de Clube da Luta para rever o labirinto de sinapses dentro da cabeça de Edward Norton.

Outro sinal da rabugice que vem grátis com a idade: hoje em dia, não dou a mínima para adaptações. Se tiver lido o livro ou o gibi que inspirou um live-action, meu interesse e empolgação ficam abaixo de zero. Entretanto, adoraria ver um diretor sério brincando com esse romance. E eis que, então, busquei rapidamente no Google se existe algum plano de produzir um filme de Viagem Fantástica e olha ali... 

No chão! Conseguem ver...?! É o meu queixo que se espatifou!

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Infelizmente, é um livro fora de catálogo. No Brasil, foi publicado em 1987 pela Editora Best Seller e, em 1989, pela Nova Cultural. Ainda é possível encontrá-lo na Estante Virtual por valores entre R$ 9 e 36, além de versões digitais em ePub para leitura no Kindle. Com 440 páginas, li em dez dias. Não tenho dúvidas que você as lerá em bem menos tempo.

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[1] Por exemplo: Andy Weir, autor de Perdido em Marte e Devoradores de Estrelas, faz sucesso com essa abordagem de trabalhar discursivamente com ciência real para ativar a suspensão de descrença no leitor. Pode apostar que uma das referências desse autor é o Asimov.

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

FRACASSO DE PÚBLICO

De nossa última transmissão para cá, eu voltei com o rabo entre as pernas para o Twitter, Trump[1] venceu a agenda “woke”, trinta e poucos aloprados foram indiciados, provou-se que Putin é um robô e, no lado de cá, preciso admitir que fui fraco e curti Absolute Batman nº 1. Me sinto tão mal com isso que, toda vez que fecho os olhos, vejo um Dennis O’Neil cabeludo me julgando.

Sim, parece que estava de férias do blog, sem redigir nada, mas foi justo o contrário. Recentemente, no lado d’os Escapistas, nós concluímos as gravações da nossa série dedicada ao Starman. No total, para vencermos as oitenta edições, especiais e minisséries, foram necessários oito episódios; separados por meses e até anos para concluirmos tudo. Enquanto dura essa fase de (re)leituras, pesquisa, anotações, redação de pautas e, finalmente, o plugue conjunto de microfones com o elenco, os brutos já produzidos ficam salvos e intocados. Com a minha paranoia, mantenho tudo em HDs externos, DVDs de dados e drives na nuvem.

Consequentemente, a solitária fase de edição e tratamento dos áudios só começa quando me dou por satisfeito nesses atos preparatórios. A “pós-produção” já foi mais light, e agora me demoro demais justo pelos dissabores oficiosos da vida cotidiana. O déjà vu não é por acaso, visto que sempre entro numa espiral doida de mau humor quando uma série, de fato, conclui, tendo publicado todos os episódios. Dessa vez, acrescentei um ingrediente à mistura que piorou minhas crises existenciais.

Guarde esse pensamento.

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Não sou o maior fã de Chip Zdarsky. Em termos de Batman, eu acho que ele tem entregado se não o pior, certamente um dos piores runs que já li do personagem. Dos Novos 52 para cá, não tenho a menor dúvida. É o pior.

Posto isso, nesse meio-tempo que sumi, encarei Domínio Público, uma obra totalmente autoral desse roteirista/desenhista. É outro Zdarsky. Um que te dá a exata noção do mal-estar que atravessa a atual geração de criadores em meio a editoras majors. O temor de, inadvertidamente, criar um “Soldado Invernal” e ter que lidar com as mesmas frustrações que Ed Brubaker.

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Se estavas em Marte em 2021, à época da estreia da minissérie de Sam & Bucky no Disney+, Brubaker fez um desabafo na sua newsletter, a princípio rasgando elogios as pessoas de Anthony Mackie e Sebastian Stan...

[...] mas, ao mesmo tempo, na maior parte, tudo o que Steve Epting e eu recebemos por criar o Soldado Invernal e seu enredo é um 'obrigado' aqui e ali, e ao longo dos anos isso se tornou cada vez mais difícil de conviver. Vi até altos escalões do lado editorial tentando levar o crédito pelo meu trabalho algumas vezes, o que foi bem irritante (para deixar claro, NÃO estou falando de Tom Breevort, que foi um ótimo editor e muito prestativo). Então, sim, sentimentos mistos, e talvez seja sempre assim (mas espero que não). Trabalho por encomenda é o que é, e sinceramente estou emocionado por ter cocriado algo que se tornou uma parte tão grande da cultura pop - ou mesmo da subcultura pop com toda a ficção slash Bucky-Steve - e aquela temporada no Cap, enquanto fazia quadrinhos de super-heróis, foi um dos momentos mais felizes da minha carreira. Além disso, tenho uma ótima vida como escritor e muito disso é por causa do Cap e o Soldado Invernal trazendo tantos leitores para meus outros trabalhos. Mas também não posso negar que às vezes me sinto um pouco enjoado quando minha caixa de entrada enche de pessoas querendo comentários sobre o programa."

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Voltando para o presente, ou melhor, para Domínio Público, o enredo de Zdarsky vai ao encontro exatamente desse medo contemporâneo de não ser dono do seu trabalho. Na realidade, esse nem é o dilema do desenhista Syd Dallas. É o da esposa e dos filhos, que descobrem que um super-herói criado na juventude do artista, ao contrário do que acredita a multinacional que o explora economicamente, pertence ao seu marido/pai.

Adoraria falar mais sobre, mas para os fins desse texto, o que ficou de verdade comigo foram três páginas. Elas mostram que Syd, mesmo sabendo a verdade, teme o alvoroço jurídico e o entrechoque com os publishers, dos quais sempre nutriu uma relação profissional amistosa. Contudo, o que ele não percebe é que o seu trabalho teve um alto custo na vida pessoal, e quem pagou a conta foram os entes queridos. Então, lutar pela aquela propriedade intelectual é um dever por aqueles que sempre estiveram no andar de cima, aguardando pacientemente [ou não] o término daquelas artes:

Taí... O Zdarsky me pegou nessa. Tanto que não tive como não trazer para minha própria realidade. Quer dizer, quantas vezes me peguei diminuindo o valor do meu trabalho, seja o oficial, que lida com os boletos, seja o que faço n’os Escapistas...?! E eis que, na esteira de Domínio Público, quando faço isso, percebi que não sou o único que está pagando essa conta, são as pessoas que contam comigo.

É sempre o problema de precificar algo tão do nosso cotidiano, que sequer imaginamos que do outro lado, quem está produzindo, encara aquilo como um trabalho e ficaria muito feliz que sua tapinha nas costas lhe rendesse alguns trocados. Inclusive, pensei nisso enquanto lia o e-mail do Érico Assis, tentando motivar os leitores de sua newsletter a pagar por uma assinatura. Acho justíssimo.

Por aqui, queria ver também se conseguia levantar um tutu para arcar com alguma despesa d’os Escapistas, e a forma que arrumei foi utilizar minhas anotações e materiais de pesquisa como encartes dos programas. Na estreia de Starman – nesse momento com dois episódios publicados –, lancei esses encartes como E-Books do Amazon Kindle. Cada um dos oito podcasts acompanhará um encarte do que chamei de Noites Estreladas.

Foi isso que me afastou do Pulse. A edição dos programas e a reescrita[2] dessas anotações. Algo que vem me consumindo... e me frustrando mais do que o habitual. Por que motivo, você me pergunta. Porque nossa audiência é razoável para um podcast de quadrinhos, e pior que isso, um podcast completamente especializado, que foca em séries longas e passa até meses sem que outra se inicie.

Um episódio nosso tem em torno de 600... 800 plays. Um número irrisório para um canal de YouTube, mas para o nosso microcosmo, é até uma audiência razoável. Não raro, Os Escapistas figura nas paradas nacionais do seguimento Hobbies; vale dizer, até em paragens internacionais, ganhando algum destaque entre nossos irmãos lusitanos.

Logo, vejam meu raciocínio: cada um dos Noites Estreladas custa apenas R$ 2,00. Vamos combinar que é um valor simbólico, do qual faço questão de mencionar que funcionaria como um apoio ao programa, já que não temos condições de manter uma campanha de financiamento em Catarse ou congêneres. Para ser franco, foi o único meio que consegui viabilizar para arrecadar algo, tendo em vista que a periodicidade é bem esporádica, quase como se fizéssemos séries/antologias documentais sobre temas específicos. Também não é algo que mudará minha vida financeira, tampouco conto com isso, mas dá um trabalho daqueles.

Nos dois primeiros programas, faço questão de pedir com todas as palavras o apoio do ouvinte que gosta do nosso podcast.

No dia 27 de novembro de 2024, esse é o número (provisório) de vendas dos dois Noites Estreladas juntos:

Essa é a dimensão do meu fracasso de público.

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O fato é que o negócio é praticamente de graça e ninguém deu bola. O ego dói um pouco... Ok. Dói muito. Se está assim no começo, deve ir até o final sem [quase] ninguém interessado, muito embora, em respeito a esse quinteto de boas almas, irei até o final, publicando todos os oito encartes. Só não garanto que voltarei mais a produzir podcasts. Na minha cabeça, Starman será a última série d’os Escapistas.

Meu momento “Syd Dallas” foi quando me vi no dia do aniversário, editando o podcast e o texto do encarte... E de algum modo, me senti incomodado porque ia sair sem concluir os trabalhos, sendo que, naquele instante, minha família me aguardava para comemorar esse natalício. Foi ali que a ficha começou a cair.

Não vale a pena. A conta não fecha. É hora de fechar. É hora da última escapada.



[1] O que não me diz nada, ou melhor, até diz, mas sigo na toada do Paulo Coelho.

[2] Longe de mim me comparar ao grande Moacyr Scliar, mas me lembrei desse trecho enquanto reescrevia meus garranchos: [...] A ideia que as pessoas têm é que o escritor é um cara que escreve com tremenda facilidade, que vai botando as palavras. Mas não é assim. O escritor tem essa facilidade, mas, ao mesmo tempo, ele tem um nível de exigência que o comum das pessoas não tem. Vejo pelos e-mails que escrevo. A pessoa escreve uma frase, pode não estar bem escrita, mas tudo bem, porque serve para transmitir o pensamento dela. O escritor não se contenta com isso. Ele quer transformar a palavra num instrumento de criação estética, e isso exige um esforço. Daí a necessidade de reelaborar. Garcia Marques, em O outono do patriarca, reescreveu 16 vezes o primeiro parágrafo. E eu mesmo, na Zero Hora o pessoal me conhece, reescrevo muito. Mando a minha matéria, aí releio e penso: isso aqui eu podia melhorar. Aí melhoro, mando de novo, e digo, vale essa, aí mando uma terceira vez. E eles já estão acostumados. Jornalista, geralmente, não faz isso, escreve e manda. Tem muitos editores que tiram as obras dos escritores: “chega de mexer”, dizem. Na verdade, escrever é reescrever."

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

30 SEGUNDOS

Pelos últimos textos, dá para perceber que ando numa fase meio niilista, com um humor ranheta típico de quem aprecia o inverno de Northampton e agora é verão na cidade. Talvez por isso esteja me voltando tanto para o Noir e/ou historinhas mais urbanas, pessimistas até. Quer dizer, setembro mal chegou a metade e, fazendo um balanço parcial, tudo o que consumi, basicamente, foi nessa toada.

A começar por Fogo contra Fogo (Heat, 1995), de Michael Mann. Uma reprise que, até então, acredite ou não, jamais havia feito. Dá para dizer que, depois de tanto tempo, foi como ver o filme pela 1ª vez, já que lembro vividamente de alugar a fita VHS quando ainda era lançamento; talvez em 96? Enfim, acho que as quase três horas de projeção foram o que chamam de experiência religiosa. E não errei na colocação do substantivo: foi projeção mesmo![1]

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As linhas gerais do enredo ainda estavam intactas na memória: uma quadrilha altamente especializada, liderada pelo ladrão mestre Neil McCauley (Robert De Niro), é caçada pela unidade de crimes especiais de L.A, sob a supervisão do detetive-tenente Vincent Hanna (Al Pacino). Por outro lado, toda a argamassa entre esses dois, já havia se esfarelado na cachola e tornou a experiência em algo novo. Logo, as relações que os dois antagonistas constroem – e/ou destroem –, quase no nível de um seriado de TV, dada a pressa inexistente para desenvolvê-las, são coisas que ficaram comigo.

" Hanna era assombrado por sonhos, cadáveres em uma mesa comprida olhando para ele. Eles ficaram em silêncio. A aparência deles impunha obrigações, mas McCauley não reconhecia obrigações. Ele tivera sonhos nos quais não conseguia respirar, estava se afogando. Talvez estivesse ficando sem tempo, sugeriu Hanna. Eles eram iguais, porque sabiam que a vida era curta, nós somos pegadas em uma praia esperando a maré subir. E cada um navegava pelo futuro que vinha em sua direção com os olhos bem abertos. Sensíveis, opostos em algumas questões, eles eram iguais na compreensão de como o mundo funcionava, livres de ilusões e autoengano. Ao mesmo tempo, cada um explodiria o outro sem hesitação. Eles também sabiam disso. Mas aquilo poderia nunca acontecer. Eles poderiam nunca mais se ver. "

Da metade para o clímax acachapante, McCauley está decidido a buscar uma vida mundana, tratando o roubo final como seu último trabalho, mas joga tudo para o alto quando cai na provocação de Hanna e deixa-se levar pelo próprio ego. Já Hanna não poderia estar mais longe da normalidade, vendo o trabalho sepultar outro casamento (3º). Ambos são obsessivos natos, tão gigantes que sequer cabem juntos dentro da telona. E não cabem mesmo. Mann jamais enquadra o ladrão e o policial num mesmo plano. Jamais. Isso é incrível.[2]

O mantra do criminoso era sair em trinta segundos caso sentisse o fogo inimigo dobrar a esquina. Nate o lembrou disso. Hanna poderia cometer erros, poderia acertar ou errar. Neil não poderia se dar ao luxo de errar uma única vez.

Curiosamente, o mantra de McCauley é testado por Hanna, exatamente quando ele se vê com a (futura) ex-esposa no hospital, numa vigília pela enteada que acabara de salvar de uma tentativa de suicídio. O seu bip toca e ela, pelo hábito da vida a dois, sabe que é um chamado e Hanna, fatalmente, não aguentaria e iria atendê-lo. Eu não voltei para cronometrar a passagem, mas gosto de pensar que a cena não dura mais que trinta segundos. Assim, o mantra de McCauley vale não apenas para a iminência de ser preso, mas, sim, de não se apegar a nada que levasse trinta segundos para largar e fugir.

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No fim das contas, foi esse o erro de McCauley, de passar mais que trinta segundos para desapegar. E nem me refiro a Eady (Amy Brenneman), o interesse amoroso que, supostamente, o levaria à vida mundana na Nova Zelândia. A derrocada foi ignorar os instintos e ir, resoluto, para a armadilha que a polícia montou em torno de Waingro (Kevin Gage). Uma ponta solta que ficou atravessada num nível que impele McCauley a se desviar do final feliz, rumo ao avião da fuga, e ir ao hotel matar o ex-colaborador/serial killer/dedo-duro.

E aí... Bem, não sei se acontece com vocês, mas sempre que estou lendo algo, talvez por sincronicidade, algumas coisas passam a tangenciar outras. Ocorreu agorinha enquanto lia Parker: The Outfit, de Richard Stark, mais precisamente quando o protagonista deixa transparecer algo que, em tese, talvez batesse com a mecânica de um Neil McCauleuy mais jovem:

" Foi um sinal ruim quando um homem como Handy começou a possuir coisas e começou a pensar que poderia se dar ao luxo de ter amizades. Posses amarram um homem e amizades o cegam. Parker não possuía nada; os homens que ele conhecia eram apenas isso, os homens que ele conhecia. Eles não eram seus amigos e não possuíam nada... Quando um homem como Handy começou a ansiar por posses e amizades, isso significava que ele estava perdendo a dureza. Foi um mau sinal. "

Essa dureza de Parker parecia estar ali no comecinho de Fogo contra Fogo, de McCauley não carregar bagagem. De McCauley simplesmente ser como uma rocha – ou os metais que estudava para um golpe – ou uma montanha ou uma lei da natureza. Um bom exemplo da "materialização" desse vazio existencial está no(s) apartamento(s). McCauley tem nada menos que uma geladeira e a vista para o mar; Hanna, uma TV de 19" polegadas. São homens experientes que, embora corroídos pelo Nada, seguem em frente... inexoráveis. Por outro lado, olhando em perspectiva, é engraçado pensar em De Niro e Pacino como dois homens velhos, sendo que, à época, o primeiro tinha 52 anos e o segundo, 55; e ambos estavam inteiraços.[3]

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A propósito, os excertos em prosa sobre Fogo contra Fogo pertencem a sequência romanceada pelo mesmo Mann, e ladeado da escritora Meg Gardiner. A história do livro começa poucas horas depois dos acontecimentos do filme e, por incrível que pareça, faz quase dois anos que foi lançado no Brasil. Digo isso porque me enquadro no público-alvo e não lembro de ter visto qualquer divulgação. Como o diretor pretende filmar a continuação, é questão de tempo até que o romance comece a atrair a atenção de Booktubers & derivados. 

De todo modo, se vale de alguma coisa, estou lendo Heat 2, alternando com Parker... Logo, meu Noir interior tá saindo pelo ladrão.

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[1] Comprei um mini projetor e, desde então, tudo virou cinema em casa.

[2] A foto que ilustra e encabeça o post é puro bait. É de bastidores.

[3] Sendo franco, estão melhores que eu, com 42. Porra... Preciso cuidar melhor da carenagem.

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

RÉQUIEM PARA OS MEUS SUPER-HERÓIS

Com a abstinência do Twitter, estou redescobrindo que antes de ser um tuiteiro aplicado, eu costumava usar esse blog como um espaço de descarrego. Não exatamente como cantilenas vazias, mas para comentar rapidinho o que estou assistindo, lendo e, claro, a inquietação do momento. Lógico que, com 280 caracteres, o papo lá era reto, retíssimo... Ainda assim, ao longo dos anos, deixei vários insights[1] que, hoje, por estarem inacessíveis, me arrependo bastante de não tê-los salvo num bloco de notas mínimo. Um erro que não cometerei mais. Ou irei de um jeito diferente e estranhamente parecido. De todo modo...

Apartar-se inteiramente da sua própria espécie é impossível. Para viver no deserto é preciso ser santo. [2]

✨✨✨

Nós nos achamos imortais. Compramos pilhas e pilhas de gibis, alguns dos quais, com dimensões e pesos que inviabilizam até mesmo suas leituras com alguma dignidade e ergonomia. O imediatismo ou a mera certeza da invencibilidade não dá chance para cogitar se, num futuro próximo/distante, sequer teremos condições de, por nossas próprias forças, retirar volumes assim da estante. Aliás, caso a (remota) possibilidade de virarmos ração de verme se concretize, só peço que Deus tenha piedade dos nossos entes queridos.

No meu caso, além do lugar onde moro, possuo caixas e mais caixas de quadrinhos acondicionadas na casa da minha mãe e sogra. Quer dizer, no dia que eu me for, tenho certeza que meu bom nome seguirá sendo profanado por um tempinho. Mas conjecturas mórbidas à parte – batam na madeira! –, no alto dos meus 42 anos, confesso que estou começando a olhar com outros olhos para a existência física de tudo aquilo que sempre gostei de ler ou ver e manter comigo aqui, à distância do braço.

Paradoxalmente, isso passa pela inversão da história do vazio de William King, de que os indivíduos colecionam objetos ante a necessidade de preencher vazios interiores, às vezes, por causa de experiências de vida negativas, outras vezes para sobreviver num mundo que considera hostil[3]. Por que falei em inversão? Porque sinto que meu próprio vazio já começou a transbordar e precisa ser esvaziado. Ou, caso contrário, não precisa mais ser preenchido, ao menos não no sentido físico.

Eu me peguei pensando nessas coisas enquanto lia Nêmesis, de Isaac Asimov. Não que o livro trate desse tipo intermitência da morte – ou será que trata?[4] –, mas enquanto o devorava ocorria o mais recente Prime Day e, com ele, vi promoções bem sedutoras em torno das coleções da Fundação, Série dos Robôs e Império. E aí, por reflexo, coloquei os (quatorze) livros no carrinho. Quando estava na iminência de pagar, parei e pensei comigo mesmo: “eu paguei e li todos via Kindle, por que preciso tê-los na estante?”.

Antes não os tivesse lido. Antes tivesse acabado de assistir a O Mundo Depois de Nós, e me apavorado com uma existência sem mídia física. Não é o caso, e não me assusto fácil. O período em que esses pensamentos começaram a tomar de assalto meu cotidiano coincide com a época em que estava concluindo a leitura de Starman. O arco de despedida de Jack Knight abriu um rombo no meu peito e preencheu todos os vazios super-heroicos que ainda teimavam em existir.

Senti como se eu fosse o Névoa e o próprio Ted Knight estivesse me levando embora. Contudo, em vez de explodir lá em cima, na estratosfera, sigo aqui embaixo. Isto é, no lugar mais baixo que já estive como gibizeiro, comprando as Sagas[5] que coleciono com uma má vontade daquelas; pechinchando os volumes de Lúcifer com o risco de vê-los esgotados; e – acredite se quiser – até um pouco enjoado da mídia como um todo.

Obviamente, deve ser algo passageiro, o que não muda o fato de que, agora, em 4 de setembro de 2024, eu sinta que fui embora junto com Jack. Sim, quando virei a última página de Starman nº 80, apagou uma luz e algo me dizia que, em matéria de super-heróis, nada mais precisava ser dito. A partida de Jack, resolvendo todas as pendências em Opal City, dirigindo-se para uma nova vida em São Francisco, é uma metáfora que grudou em mim.

Caracterizado como um outsider num mundo ficcional, Jack começa Starman como um super-herói relutante, aceitando o legado de família desde que o pai, Ted, use a expertise em energia cósmica para criar coisas úteis à sociedade. Com o tempo, ele aprende a curtir a experiência, faz vários amigos, alguns poucos inimigos e até realiza um mochilão pelas galáxias. Perdeu o irmão sem nunca conhecê-lo de verdade. Ganha um filho em circunstâncias bizarras. Conhece melhor o irmão num insólito além-vida. Conhece o amor de uma mulher. Perde o pai. Será pai novamente. Dá as boas-vindas a novos heróis locais. Decide se aposentar da vida de combate ao crime. Decide viver a vida com a família em outra cidade. Viver outra aventura.

Depois disso tudo, me respondam com toda sinceridade: O que resta para ler de super-heróis...?!

🌟🌟🌟

Enquanto aguardo vossas deliberações, seguirei lendo o meu 2º romance da série Parker, de Richard Stark. Outra hora, falo sobre isso. Por ora, uma dica de amigo: evite ler Starman! Esse gibi vai acabar com a sua vida.

🌠🌠🌠

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[1] Porra! Lembrei agora de uma thread que fiz sobre a leitura da Biblioteca Eisner... Que ódio!

[2] Epígrafe contida em Golpe de Misericórdia, de Dennis Lehane.

[3] Uma ilação, hoje em dia, muito popular, saída das páginas da obra Collections of Nothing (2008).

[4] [...] a vida é uma sinfonia de perdas sucessivas. Perdemos nossa mocidade, nossos pais, nossos amores, nossos amigos, nosso conforto, nossa saúde e finalmente nossa vida. Negar as perdas é perder tudo isso de qualquer maneira e perder, além disso, o autocontrole e a paz de espírito.

[5] Quais sejam: Sagas do Batman, Superman, Mulher-Maravilha, Flash, Vingadores e X-Men.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

LUGARES (AINDA MAIS) ESCUROS

"Essa é sempre a minha coisa; eu quero entreter as pessoas, mas é uma coisa de lobo em pele de cordeiro. A pele de cordeiro é a história do crime, eu acho. E o lobo é o verdadeiro significado da história, que eu muitas vezes nem sei quando estou escrevendo. [...] Eu nunca quero tentar fazer algo que pareça exatamente como o que fizemos antes. Até os livros Reckless parecem um pouco diferentes uns dos outros porque seus enredos são diferentes e acontecem em anos diferentes. A próxima coisa é sempre a mais difícil de escrever. É como um neo-noir de terror e suspense do Pânico Satânico. [...] É sobre uma mulher que fez parte [disso] nos anos 80 quando criança e que agora é adulta em nosso mundo moderno. Chama-se Houses of the Unholy. Sean disse que é a coisa mais estranha que já fizemos. Então, entenda isso como quiser."[1]

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Acabei de ler a graphic novel que o Ed Brubaker descreve acima. Tá quentinha ainda e faz só alguns dias que foi publicada, em 19 de agosto. Essa fala data de fevereiro de 2024. De lá para cá, o escritor pouco tem aparecido na internet; sua newsletter, por exemplo, foi atualizada pela última vez em junho último. À época, ele havia registrado apenas alguns bastidores das filmagens de Criminal. Nada de mais, já que, de um tempo para cá, Brubaker se tornou bem avesso à presença online, especialmente em redes sociais; das quais não mantém mais nenhuma.

Não obstante, o que vinha sendo uma regra dos seus lançamentos da parceria com Sean Phillips eram as entrevistas a dois no canal do Forbidden Planet, além dos posfácios em todas as obras de Reckless (2020) em diante. Nesses espaços, era possível vê-lo numa posição desconfortável – acredito eu –, falando de onde vinham as inspirações de cada projeto, não raro, de memórias & angústias do passado. Em Casas do Profano não ocorreu nem uma coisa, nem outra.[2]

O que, de maneira nenhuma, não é ruim. Faz o quadrinho soar ainda mais enigmático, dada a temática tão pesada. Para começar, mesclar a histeria coletiva frente ao satanismo com algo como o plot de A Caça (2012), com Mads Mikkelsen. No filme de Thomas Vinterberg, um professor de jardim de infância em uma minúscula cidade dinamarquesa, por um mal-entendido que foge de controle, acaba sendo acusado de pedofilia por uma de suas alunas. Doravante, verdade ou mentira, sua vida estava acabada e a película mostra cada centímetro dessa descida ao inferno.

Na trama de Brubaker & Phillips, a denúncia é feita por seis crianças após uma colônia de férias, porém, com o elemento do abuso ritualístico. O caso vai a julgamento com um dos acusados chegando à capitular a própria vida, tamanha a pressão e a proporção que estava chegando. No fim, fica comprovado que tudo não passava de uma mentira e os “Seis Satânicos” sofrem os reveses disso, tendo suas vidas e a dos familiares destruídas.

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Off-Topic, mas nem tanto:

Ao caminharem por esses lugares escuros, infelizmente, Brubaker & Phillips têm um sem número de fontes. Muitas das quais, inclusive, virando exemplos célebres de investigações tendenciosas e erros judiciários crassos nos Estados Unidos. Um deles foi o Trio de West Memphis, que não passavam de adolescentes metaleiros implicados num múltiplo assassinato de crianças escoteiras. Sem qualquer chance de defesa, com a polícia fabricando indícios e provas, além de perjúrios descarados, eles foram julgados em 1994 e ficaram presos até 2011, quando exames de DNA levaram à conclusão que o material genético na cena do crime não era de nenhum dos três condenados. Circunstâncias tão cinematográficas que chegaram mesmo às vias de fato.

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De volta à HQ, mas mirando o presente, a trama se volta para Natalie Burns como uma investigadora à moda Jack Herriman. Assim como o protagonista de Cena do Crime, ela fora contratada para resgatar outra jovem impressionável cooptada por alguma seita nefasta. Seria (também) um dinheiro fácil, não fossem as circunstâncias voyeurísticas de um dono de motel – ou chalés – que pensa estar visualizando um sequestro pelas câmeras ocultas e faz uma chamada para a polícia.

Ao ser detida para interrogatório, Burns é liberada sob a custódia do Agente West do FBI. Porém, rapidamente descobrimos que ele não está interessado no suposto rapto, mas, sim, num caso que chamou sua atenção. Antes do 11 de setembro, West compunha a Unidade de Crimes Cultuais do Bureau, porém a divisão foi dissolvida quando os federais passaram a centrar esforços em terroristas e milícias de extrema-direita. Fora que não contribuía em nada incidentes como o dos Seis Satânicos, desacreditando qualquer trabalho sério.

Entretanto, West acredita que as outrora seis crianças da infância de Burns estão sendo alvos de um assassino que não segue um padrão verificável. Sendo que três já haviam sido mortos e Burns podia ser útil em sua caçada solitária ao serial killer, seja na interlocução com os demais, seja evitando mais vítimas. Logo, a busca vira um road movie com a dupla trocando traumas passados, com discussões acaloradas sobre os (nossos) demônios contemporâneos.

É curioso que, às vezes, o aprofundamento de um tropo vem depois que o leitor valida uma história anterior e o escritor sente-se confortável para esticar a corda. O que quero dizer é que Casas do Profano vem na esteira, por exemplo, de Matar ou Morrer e transforma críticas anteriores em soda cáustica. A exemplo do inconformismo velado de Brubaker com o nativo das redes sociais; manifestado na alienação do irmão mais novo de Burns.

Por outro lado, a nova história não vira um Taxi Driver com um anti-herói delirante, que faz o que faz se dizendo influenciado por um demônio. Não existe catarse nos demônios de Natalie Burns; eles estão numa memória não confiável - formatada até - e numa culpa quase paralisante. Eis um gibi difícil, tanto no recordatório quanto na estética dos Phillips; onde os vermelhos (de Jake) pontuam os trechos no passado, sempre te levando a lugares de ocaso e opressão. Já os tons azuis no presente transparecem tristeza e a maldição de ser racional em meio a um mundo irracional.

Se leu e ficou mal, parabéns! Você leu certinho.

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Links Afiliados


[1] Excertos extraídos de uma entrevista concedida por Ed Brubaker ao site Gizmodo, na época do lançamento de Onde Estava o Corpo.

[2] Talvez pela falta de tempo, já que o homem, como disse, está envolvido na produção de Criminal. Ahh, e se não ficou claro, o nome "Casas do Profano" é informal, já que a Editora Mino ainda não sinalizou como vai se chamar o título quando - ou se - for lançado no Brasil.