sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

HABEMUS FILMAÇO!

"Deixem-me dizer-lhes, há um pecado, que vim a temer mais que todos os outros: Certeza. A certeza é a maior inimiga da unidade. A certeza é a inimiga mortal da tolerância. Mesmo Cristo não estava seguro no final. Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Ele clamou em sua agonia na nona hora na cruz. Nossa fé é algo vivo, exatamente por caminhar de mãos dadas com a dúvida. Se houvesse apenas certeza e não dúvida... Não haveria mistério e, portanto, nenhuma necessidade de fé. Vamos rezar a Deus que nos garanta um Papa que duvide. Um Papa que peque e peça perdão, e que prossiga em frente."

Essa passagem é registrada pelo Decano Lawrence (Ralph Fiennes) em sua homilia, três meses após a morte do Papa. O discurso inaugura as deliberações para o Conclave e as subsequentes votações que resultarão na escolha do novo Sumo Pontífice. A mensagem é uma clara alfinetada a um dos cardeais que postulava o cargo, que horas antes, em off, destilava ao próprio Lawrence uma intolerância velada aos avanços da Igreja em pautas progressistas e o desejo de que o papado voltasse a ser comandado por italianos natos.

Lawrence preside a eleição e não anseia o cargo em disputa, mas vota abertamente no Cardeal Bellini (Stanley Tucci), um amigo próximo, crítico do retrocesso e talvez um bom sucessor do finado Santo Padre. Num passado recente, Lawrence passou por uma crise de fé, não em Deus, mas na instituição e, agora, diante de vários homens que desejam mais do que tudo o poder papal, ele terá que andar na corda bamba, entre a isenção que o pleito exige e a (dura) realidade que se apresenta.

O que me impressionou de verdade no filme de Edward Berger foi o fato de que, no frigir dos ovos, trata-se de uma história de detetive. Sim, existem mistérios - ou seriam esqueletos nos armários? - em torno dos candidatos e eles devem ser elucidados - ou desentocados dos armários? - para garantir uma eleição limpa. Ou, vá lá, evitar que o homem errado vire Papa?

Isso quem tem que responder é o espectador que, do outro lado da tela, se vê tenso e perplexo no enredo mais improvável dos Oscarizáveis de 2025. E se quer saber, por ora, minha torcida para a estatueta de melhor ator é toda do Decano Fiennes[1]. Afinal, o que ele precisa entregar aqui não é pouco: transmitir controle emocional em meio a situações limítrofes onde um exausto Lawrence tem que domar egos, pacificar ímpetos e contemporizar sua fé cristã.

Dada a inesperada humanização de um ritual que paralisa o mundo (real), não é de se espantar que o roteiro de Peter Straughan e Robert Harris esteja causando furor nas premiações mundo afora. E nem vamos comentar a ousadia daquele desfecho...

Habemus filmaço... e bolas!



[1] Atualizado após o Oscar 2025: não foi dessa vez. O vitorioso da noite foi o agora bicampeão Adrien Brody, por sua atuação em O Brutalista. Porém, a dupla que citei acima levou a estatueta de Melhor Roteiro Adaptado; a única dentre as oito a que estava concorrendo.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

O TRIUNFO DE SUE

Relutei um pouco em assistir A Substância (The Substance, 2024). Em algum momento do ano passado, o filme virou assunto nos meus círculos, fora a onipresença nas redes sociais via Gifs e Memes. Porém, o fato de ter visualizado - contra a minha vontade - cenas de gore e a óbvia percepção que se tratava de um body horror, me tiraram do caminho tortuoso percorrido por Elisabeth Sparkle (Demi Moore).

Nunca me dei bem com o subgênero, a despeito de apreciar a visceralidade do cinema de David Cronenberg. Com a indicação ao Oscar na categoria melhor filme, fiquei genuinamente curioso e decidi me submeter a tal experiência tão alardeada no enredo de Coralie Fargeat. Na trama, a personagem de Moore é uma estrela de um tradicional programa de ginástica na TV, tão conhecida no meio que seu nome foi adicionado à Calçada da Fama.

O problema é que os índices de audiência andam em baixa e o produtor (Dennis Quaid, asqueroso em cada frame) bota isso na conta da idade de Sparkle. Para o executivo, ela estaria velha e era hora de procurar uma substituta mais jovem. Demitida, Sparkle se via agora na rua da amargura, tendo que aceitar a aposentadoria forçada, até o dia em que recebe anonimamente o convite para participar de um experimento.

Ela injetaria uma substância ativadora que, a partir de sua coluna cervical, daria origem ao que parecia ser uma versão jovem de si mesma. A ideia era que, como "Matriz", Sparkle trocaria de lugar com seu outro Eu em rodízios rigorosamente pré-determinados. Enquanto uma hibernava, a outra assumiria. No caso de "Sue" (Margaret Qualley) - o Eu mais jovem -, em segredo, decide competir pelo lugar de Sparkle na TV e não só consegue, como passa a ser a nova queiridinha do canal.

Em dado momento, quando o revezamento começa a dar errado - especialmente para Sparkle -, a subjetividade entra em cena e te leva a questionar se as duas realmente são a mesma pessoa, ou melhor, uma só pessoa diante de um worst case scenario de autossabotagem.

Moore e Qualley estão impossíveis em atuações com mais fisicalidade do que trocas intensas de diálogos. São silêncios, por vezes, incômodos e uma sexualidade propositalmente fútil; essa última reforçada pelo close-up extremo da câmera da diretora Fargeat. O clímax de A Substância é difícil de assistir e se tiveres uma resistência ao body horror parecida com a minha, te adianto que serão vinte minutos de pura agonia.

Uma agonia que, acredito, deve ser catártica para os fãs desse tipo de horror. Por último, me surpreende (positivamente) a Academia[1] trocar seu arroz com feijão básico pelos sabores fortes desse baião de dois & queijo gorgonzola.



[1] Atualizado após o Oscar 2025: das três indicações a que concorreu, entre melhor filme, atriz e maquiagem & cabelo, o único êxito foi na última. O que, confesso, foi uma surpresa. Imaginava que essa categoria seria batata para Nosferatu, porém, a produção de Robert Eggers saiu de mãos abanando. Já Moore tinha um páreo duro com Fernanda Torres e Mikey Madison; o que não diminui nem um pouco o impacto do plot twist, vendo a jovem Su-- Anora abocanhando a estatueta das veteranas.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

VOE COMO A ÁGUIA, MANFREDI

2025 mal começou e já sinto náuseas antes de pegar no smartphone. Afinal, ultimamente, ele só tem se comportado como um mensageiro portador de más notícias. Fosse vivo, eu o mataria. Também pudera, foi este maldito aparelho que matou David Lynch, matou em vida Neil Gaiman, deu posse a Donald Trump, mas, como única exceção, salvou seu pescoço ao consagrar Fernanda Torres e Ainda Estou Aqui com suas indicações ao Oscar.

Então, estava tudo bem entre nós, talvez estivéssemos, inclusive, caminhando rumo a um #Sextou satisfatório. De repente, o aparelho desgraçado rompe nosso armistício e traz a notícia do falecimento de Gianfranco Manfredi. Aí não...

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Falando sério... Nem tenho cultura para comentar superficialmente o tamanho da perda desse roteirista. Para mim, um escritor genial, com um nível de erudição, fluidez e traquejo na mecânica gibizeira à altura dos imortais da 9ª arte. Para o povo italiano, além da expertise nos fumetti, um autor prolífico e multifacetado, compositor, romancista, ensaísta.

Estou triste e, sincronicidade ou não, acredite, ontem à noite estava lendo Mágico Vento nº 74. Quando bateu o sono, fechei o tablet exatamente nessa sequência:

Diana, a filha mais velha de três, escreveu o seguinte: Artistas como ele nunca nos deixam. [...] Gianfranco sempre viverá através de tudo o que nos deixou e isso alivia nossa dor. Hoje, lembrando-se dele ouvindo uma de suas músicas, lendo uma das milhares de páginas que ele escreveu, ou pensando em um momento passado juntos, certamente o faria feliz."

Eu sei que ainda o farei muito feliz, dado o meu compromisso atual de ler as 57 edições de Mágico Vento que me restam, fora os vários números de Tex, as minisséries Face Oculta, Shanghai Devil e o que mais puder encarar em sua vasta bibliografia Bonelli. Será uma boa vida de leituras.

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Obrigado por tudo, Signore Manfredi.

Mitakuye Oyasin.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

NEGÓCIO NO FIO DO BIGODE

Costuma-se dizer que quando uma história se liberta de seu criador, da segurança do manuscrito, e passa a ser publicada e/ou exibida sob quaisquer suportes, enredo e personagens já não mais pertencem àquele entusiasta de outrora. Tornam-se parte do imaginário coletivo, a despeito do que o Copyright tenha a dizer sobre isso. Drácula de Bram Stoker que o diga, publicado originalmente em 1897, foi tomado de assalto no roteiro de Henrik Galeen para o filme Nosferatu (1922), de Friedrich Murnau.

Quer dizer, sem ter autorização para isso, todos os tropos do clássico de Stoker foram explorados na icônica película do cinema mudo. Ironicamente, é no derivado extraoficial que se acrescenta à trama do Conde vampiro, o plot do interesse amoroso - ou chame-o do que quiser. Ironicamente², já em domínio público há três décadas, em 1992, Francis Ford Coppola fez um combinado, utilizando os elementos característicos de ambos. Ironicamente³, Coppola chamou seu "Frankenstein" de "Drácula de Bram Stoker".

Corta para 2024, nos créditos finais do mais novo remake de Nosferatu, vemos a informação que o filme fora inspirado tanto no controverso script de Galeen quanto no livro de Stoker. Trata-se de um sarrafo muito alto para o diretor Robert Eggers saltar, sobretudo quando se tem ainda muito vívida a marca imagética do que Coppola alcançou, especialmente nos dois primeiros atos. Então, na minha cabeça, enquanto assistia, um duelo interno estava sendo travado: Gary Oldman vs. Bill Skarsgård; Winona Ryder vs. Lily-Rose Depp; Keanu Reeves vs. Nicholas Hoult; Anthony Hopkins vs. Willem Dafoe e Monica Bellucci vs...?!

Enfim, o time de 92 sempre estava vencendo os desafios contra o de 24, inclusive, no nível do roteiro, porém, com uma única exceção: o terceiro e último ato, que trata das três pragas de Nosferatu. Acho que elas conferem tetricidade, uma sensação de desolação, como se as vítimas de Wisborg tivessem acabado de sobreviver a um desastre natural. Uma desesperança ao qual espectador (ou leitor) nenhum havia se deparado até então.

O que quero dizer é que, tenho minhas restrições[1] com o Orlok - humanizado por um bigode? - e a sensação incômoda de que aquela Ellen[2] é uma Regan (de O Exorcista) no filme errado, mas o Nosferatu 2024 tem, sim, arroubos estéticos/góticos merecedores de elogios[3] e, claro, aquele desejo irrefreável de recontar as grandes histórias que permeiam à coletividade. Um desejo que atiçou os ímpetos de Murnau, Coppola e, agora, Eggers também.

E isso eu respeito[4].



[1] Confesso que antipatizei também com Van Franz, o análogo de Van Helsing. Na versão revista, Eggers o transforma numa figura vacilante, que jamais chega a ser determinante para a resolução da praga de Nosferatu. É como se o (ótimo) Willem Dafoe estivesse ali apenas para fazer react como intelectual atestando que ia dar merda. Já o Orlok me divide. Aprecio todo o esmero na caracterização do personagem, tanto do ator quanto da produção, mas em momento algum o achei assustador. Aliás, depois que vi isso... Sem chance!

[2] Dediquei quatro anos da minha vida a Mina Murray de Bram Stoker e, em especial, a subversão apócrifa da mesma por Alan Moore e Kevin O’Neill em A Liga Extraordinária. Então, modéstia à parte, creio que possa me indispor um pouco com essa Ellen amuada de Robert Eggers.

[3] [...] e as quatro indicações que recebeu no Oscar 2025, quais sejam: melhor fotografia, melhor figurino, melhor cabelo & maquiagem e melhor design de produção.

[4] Só não respeito esse ar um pouco pretensioso que esse diretor exala quando dispara coisas como a ideia de ter que fotografar um carro me deixa doente.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

O VENENO DE MAX CADY

Por volta dos 36min de Cabo do Medo (Cape Fear, 1991), existe um frame do ex-presidiário Max Cady que sempre via reproduzido em casting calls de fãs, elegendo o ator Robert De Niro como uma caracterização perfeita do anti-herói Wolverine. Se você tocar o play nesse exato momento, não tenho dúvidas que terá náuseas e ficará horrorizado com a mera sugestão de que alguém cogitou que o (honrado) Logan poderia habitar aquela pele.

No enredo, após 14 anos, Max deixou a penitenciária e está decidido a transformar em um inferno a vida de Sam Bowden (Nick Nolte), o defensor público que o representou à época da condenação. É que durante o julgamento, o réu respondia pela acusação de estupro e Sam deliberadamente ignorou uma dica importante que poderia tê-lo inocentado. Porém, não era a percepção do defensor e, como veremos no filme, por mais antiético que parecesse aquilo, no fim, Sam pode ter feito algum bem ali. Por outro lado, enquanto cumpria pena, Max afirma que transcendeu através da dor e do conhecimento, sendo ele próprio vítima de estupros e, outrora analfabeto, encontrou o dom da erudição nos livros (e quadrinhos!); fora a transformação do corpo, levando-o a cultivar músculos e tatuagens com mensagens alusivas à vingança que se dedicaria.

Mais que física, a retribuição de Max é psicológica, a princípio, tornando-se um stalker e depois uma sombra constante no cotidiano da família Bowden. No lado da direção, Martin Scorsese parece evocar a imagética opressiva e sonora do cinema hitchcockiano e, se me permite a indiscrição, com algumas pitadinhas de Sam Raimi na mistura.

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O tema de Bernard Herrmann é o prelúdio magistral desse pesadelo.

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Consultando os vencedores do Oscar de melhor ator, creio que em qualquer ano, De Niro teria levado a estatueta com uma mão nas costas, mas, em 1992, ele tinha pela frente ninguém menos que Anthony Hopkins e seu imbatível Dr. Lecter. Com Cabo do Medo quentinho na cachola, não deixo de imaginar que se o resultado tivesse sido diferente, também não seria nenhuma injustiça. Era apenas uma questão de "escolha o seu veneno".

No caso de Max Cady, um veneno bem forte.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

VIDAS PASSADAS

Desisti de comprar Mágico Vento. Por ter números espaçados da série original, a princípio, me animei com a possibilidade de colecionar as edições capa dura (em cores terríveis). Comprei. Quando passaram a rarear, dei uma chance para as versões em formato italiano. Comprei também. Em algum momento, vi as duas fracassarem “mythicamente”. Eis que surge a Editora 85, reiniciando novamente a roda e, agora, com a ideia de publicar cinco volumes em um. Tenho simpatia e torço pelo êxito dos novos publishers, mas fechei definitivamente essa porta; o que, contudo, não me fez desistir da leitura dos gibis por outros meios.

Dos 131 fascículos da série regular, nesse momento que digito essas linhas, acabei de ler o 66º. E como sempre, um sentimento vem à tona: o fascínio pela minúscula seção de cartas, o maldito bendito Correio de Poe. A despeito da excelência das histórias, nenhuma das três republicações chega perto de empatar a experiência que é ler o gibi com o contraponto dos leitores e causos como o registrado abaixo:

Numa era em que uma parcela expressiva dos novos desenhistas mal consegue entregar suas 22 internas no mercado editorial US, com mais presença virtual que nos quadrinhos onde supostamente deveriam estar, é curioso se deparar com o (bom) motivo dos atrasos do artista sérvio Darko Perovic.

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Curiosamente, quem fica a cargo da arte desse mesmo número é o croata Goran Parlov. Um dos nomes mais marcantes ligados a Mágico Vento e, indubitavelmente, o grande desenhista do Justiceiro no século 21. E ainda que mereça destaque o traço, mais que a estética, merece aplausos o argumento de Gianfranco Manfredi. Dessa vez, depois de um período considerável entregando faroestes históricos, o roteirista volta ao místico que é, na minha opinião, a temática por excelência do título.

Aqui, Ned Ellis se vê as voltas com uma regressão de vidas passadas, onde ele se transfere para o corpo de Ehecatl (ou Vento Sagrado), 800 anos no passado. Na trama, acuado pelos sacerdotes dos Mounds, esse ancestral foge rumo à segurança do Rio Mississipi ao lado da amada Janira o irmão Sethua, indicando que o destino de Mágico Vento sempre estaria atrelado aos ameríndios.

Uma bela história, com ares lovecraftianos e um pano de fundo que é um verdadeiro mistério arqueológico.

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A única coisa que me frustra é não contar com esse recurso do Mágico Vento para acessar memórias perdidas – quiçá, de vidas passadas. Na verdade, como mero mortal, tenho uma memória desgraçada de ruim e percebei que, enquanto lia, algo estava faltando ou me era minimamente familiar. Sim, e era verdade. A premissa dos sacerdotes dos Mounds (ou os Antigos) já havia sido trabalhada anteriormente por Manfredi, especificamente através do relato de Nuvem Vermela a Ned em MV nº54 – por sinal, também com a arte de Parlov.

Preciso escrever mais sobre esse gibi, até para evitar outros futuros transtornos. 

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