Fazendo
uma rápida consulta na loja virtual da Panini, o preço (cheio) do omnibus da
fase noventista do X-Factor comandada por Peter David é de R$ 349,90. Já os
dois volumes gigantescos do Hulk assinados pelo mesmo, custam estratosféricos
R$ 819,80. No lado da DC, as três edições capa dura de sua Supergirl
correspondem a um investimento de R$ 424,70 e o vindouro Aquaman davidiano, em
seu volume de estreia, “módicos” R$ 164,90.
Com
alguns descontos de praxe e/ou parcelamentos mil, sua alma tende a ficar
ligeiramente mais leve. Por outro lado, espero que ela – sim, a alma – pese
bastante na hora de sacar o cartão de crédito e lembrar-se dessa foto acima do
Sr. David.
O
registro fotográfico encabeçou o artigo de Rich Johnston no Bleeding Cool, em 14 de março de 2025. O texto repercute a saúde fragilizada do
escritor de 68 anos, pego para Judas em meio à insuficiência renal, derrames e
um ataque cardíaco. Vítima de um país cujo capitalismo selvagem nutre um sonho
(americano) que não permite a existência de algo como o (nosso) SUS, David se
viu desamparado pelo Medicaid e, como sua esposa revela, está agora abandonado
à própria sorte:
“A versão curta é que estamos nadando em
dívidas médicas devido à rejeição de Peter para o Medicaid – o que era uma das
poucas coisas que estava dando certo. Como muitos de vocês sabem, o seguro só
paga até certo ponto. Uma vez que se tenha usado isso, depende-se dos serviços
sociais para permitir que se viva sem ficar sem teto e sem dinheiro. É isso que
o Medicaid tem feito nos últimos dois anos.”
O
relato na íntegra de Kathleen David causa ainda mais desalento, e serve de
apelo aos fãs numa campanha de financiamento coletivo
para arrecadar US$ 150 mil. A julgar pelos mais de US$ 80 mil já doados, o
prognóstico é de que nos próximos dias, felizmente, a meta seja atingida.
***
Não
que isso sirva para aliviar sua consciência. Ela deveria, sim, pesar e muito.
Afinal, quando se paga por aqueles gibis lá em cima, por uma particularidade
arcaica e predatória dos contratos work
for hire (trabalho sob encomenda), os autores Marvel/DC não recebem
royalties nas vendas de reimpressões realizadas fora dos Estados Unidos.
Isso
ocorre por dois motivos: 1) as duas editoras
majors vendem os direitos
internacionais para outras empresas (como a Panini no Brasil), e essas
republicações, obviamente, não fazem parte da tiragem original do quadrinho nos
EUA; e 2) no mais das vezes, os acordos
não incluem pagamentos sobre republicações internacionais.
Desse
modo, os escritores e desenhistas não recebem percentuais sobre esses novos
contratos, a menos que seja algo especificamente negociado. A exemplo do feito conseguido
por Neil Gaiman em Sandman que, embora nunca revelado os termos exatos, tem-se
como certo tanto o recebimento dele de royalties internacionais pelas vendas, quanto
de dividendos consideráveis em torno de adaptações e merchandising. Insight parecido teve Rob Liefeld que, enquanto esteve na crista da
onda durante a febre mutante dos anos noventa, conseguiu emplacar direitos sob
o copyright de algumas criações em Novos Mutantes/X-Force: “Quando
Deadpool explodiu no Fortnite, isso foi realmente bom para a educação privada
dos meus filhos? Sim. Sim, foi. [...] Tenho fluxos de receita do Deadpool que
existem desde 1991.”[1]
***
Como
David não conta mais com vigor para fazer aparições em eventos e a cognição
deve estar agora em frangalhos após múltiplos AVCs, não consigo vê-lo
produzindo novos roteiros para o seu empregador mais corriqueiro. Sem qualquer
criação indie digna de nota,
construindo uma carreira profícua, porém, majoritariamente atrelada a medalhões
corporativos, é difícil crer que haverá uma reviravolta. Do mesmo modo que
nunca houve para o grosso dos notáveis que criaram sem limites e, em algum
momento futuro, esbarraram numa limitante realidade.[2]
O
problema, entretanto, é que o leitor/consumidor não costuma dar bola para esses
dilemas paradigmáticos da criação artística. Chega a ser ininteligível quando,
por exemplo, a mão que acaricia a obra de Alan Moore, costuma ser a mesma que
apedreja a animosidade do autor com a indústria do entretenimento e sua fome insaciável de
buyout.
Reformulando
para o espírito desse texto:
A
mão que compra o omnibus do Hulk, é a mesma que faz vista grossa com o Peter
David virando estatística na assistência social de Donald Trump.
Há que se botar a boca no trombone, mas mais importante que a(s) voz(es) solitária(s) do(s) autor(es), cabe ao leitor das “republicações internacionais” a iniciativa inédita de não pactuar mais com esse estado de coisas. Por mais quixotesco que isso possa parecer.
Não compre e veja a mágica acontecer.
[1] Especula-se
que até 2024, Liefeld tenha lucrado entre US$ 10 milhões e US$ 20 milhões com
sua cota-parte em Deadpool.
[2] Em Pulp, Ed Brubaker e Sean Phillips ilustraram um worst case scenario da experiência frustrante do primeiro em O Soldado Invernal, enredando uma trama onde um escritor de folhetim descobre que seu personagem não lhe pertence e não tem mais saúde ou finanças para seguir em frente. De repente, o ficcional Max Winters parece muito o verídico Peter David.
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